quinta-feira, junho 23

Voa, meu fênix


No raiar da madrugada, encontrei-me na cidade da perdição. Minha frenesi aguçava-se à medida que aproximava-me de teus aposentos. Caminhei como que ébria pelas ruas daquela cidade calada e, uma a uma, as lâmpadas oscilavam e apagavam, mostrando-me uma saudosa escuridão sem fim. Cheguei à teu leito e fitei-o por um instante. Tua pele fria e pálida deixava-me aflita, teus olhos fundos e amarelados esforçavam-se para ver minha silhueta, que sempre fora, para ti, milimetricamente perfeita. Maldita catalepsia, que insiste em querer embuçar-te com o manto da morte.
Quando dei de acordo de mim, lágrimas cortantes tomavam conta de minha face, e as flores que trouxera para ti secaram e caíram. Seria essa, então, a força da morte, como já me haviam dito? Dei um último olhar a ti, meu fênix, e pedi aos anjos que abençoassem teu sudário e entonassem canções nênias para fazer-te descansar em paz... Retornei ao meu castelo alado, agora repleto de melancolia e dor, e deixei-me adormecer pensando em ti, em meio ao relento... Minha tez murchou-se e minha expressão tornou-se fúnebre em segundos. E, enfim, pude dançar eternamente contigo no nosso mundo, no nosso jardim de cicutas e lírios cuidadosamente plantado por ti, minha dádiva.

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